{"id":503,"date":"2016-08-03T00:00:00","date_gmt":"2016-08-03T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.rogeriocastilho.com.br\/2016\/08\/03\/cerebro-muda-de-acordo-como-e-usado-diz-neurocientista\/"},"modified":"2016-08-03T00:00:00","modified_gmt":"2016-08-03T03:00:00","slug":"cerebro-muda-de-acordo-como-e-usado-diz-neurocientista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rogeriocastilho.com.br\/2023\/2016\/08\/03\/cerebro-muda-de-acordo-como-e-usado-diz-neurocientista\/","title":{"rendered":"C\u00e9rebro muda de acordo como \u00e9 usado, diz neurocientista"},"content":{"rendered":"<p>Quando o assunto \u00e9 neuroplasticidade, n\u00e3o h\u00e1 como deixar de mencionar os estudos pioneiros conduzidos por Michael Merzenich (Michael Merzenich), professor em\u00e9rito da University of California, San Francisco (UCSF). Desde os anos 1960, quando ainda predominava entre neurocientistas a ideia de que o c\u00e9rebro seria um \u00f3rg\u00e3o est\u00e1tico, pr\u00e9-moldado sob estrita ordena\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, Merzenich defende que \u00e9 poss\u00edvel, ao longo de toda a vida, criar novos circuitos e conex\u00f5es neuronais em resposta a est\u00edmulos e experi\u00eancias, o que resultaria em mudan\u00e7as funcionais. As teorias sobre a neuroplasticidade formuladas por Merzenich e outros neurocientistas contempor\u00e2neos abriram perspectivas revolucion\u00e1rias \u2013 tanto para crian\u00e7as com dificuldades de aprendizado como para pessoas com les\u00e3o cerebral decorrente de trauma ou de doen\u00e7as como acidente vascular cerebral (AVC). Nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980, por meio de experimentos com animais, Merzenich demonstrou que os circuitos neuronais e as sinapses se modificam rapidamente de acordo com a atividade praticada. Em um dos ensaios, rearranjou os nervos na m\u00e3o de um macaco e observou que as c\u00e9lulas do c\u00f3rtex sensorial do animal rapidamente se reorganizaram para criar um novo mapa mental daquele membro. No fim dos anos 1980, Merzenich integrou o grupo da UCSF que desenvolveu o implante coclear. Em 1996, fundou a Scientific Learning Corporation, empresa que desenvolve softwares voltados a aprimorar o aprendizado infantil com base em modelos de plasticidade cerebral. Tamb\u00e9m foi um dos fundadores, em 2004, e \u00e9 atualmente cientista chefe na empresa Posit Science, que desenvolve softwares para treinamento cerebral com base nos resultados de suas pesquisas. O programa \u00e9 conhecido como BrainHQ. Nos \u00faltimos anos, Merzenich tem se dedicado a verificar se a pr\u00e1tica de exerc\u00edcios intelectuais pode ajudar a remodelar as fun\u00e7\u00f5es cerebrais, possibilitando recuperar habilidades perdidas por causa de doen\u00e7as, les\u00f5es ou envelhecimento. Seus estudos j\u00e1 foram publicados em mais de 150 artigos cient\u00edficos \u2013 muitos deles em revistas de grande impacto, como Science e Nature. Ele tamb\u00e9m recebeu diversos pr\u00eamios acad\u00eamicos, como o Russ Prize, o Ipsen Prize e o Z\u00fclch Prize. Em 2013, Merzenich publicou o livro Soft-Wired: How the New Science of Brain Plasticity Can Change Your Life, no qual apresenta estrat\u00e9gias para que pessoas comuns possam assumir o controle dos processos de plasticidade cerebral e, assim, melhorar sua qualidade de vida. Merzenich esteve no Brasil no in\u00edcio de abril para apresentar uma palestra no 3rd BRAINN Congress, organizado pelo Instituto de Pesquisa sobre Neuroci\u00eancias e Neurotecnologia (BRAINN), um Centro de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o (CEPID) financiado pela FAPESP e sediado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Na ocasi\u00e3o, concedeu uma entrevista \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP na qual falou sobre como mudan\u00e7as positivas e negativas podem ser direcionadas no c\u00e9rebro. Leia os principais trechos a seguir.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia FAPESP \u2013\u00a0<\/strong>Como o senhor define o conceito de neuroplasticidade?<\/p>\n<p><strong>Michael Merzenich \u2013<\/strong>\u00a0O c\u00e9rebro foi constru\u00eddo para mudar de acordo com as experi\u00eancias vivenciadas e a forma como \u00e9 usado. A esse processo cont\u00ednuo chamamos de neuroplasticidade. Quando trabalhamos para aprimorar uma habilidade, ocorre uma mudan\u00e7a na \u201cfia\u00e7\u00e3o cerebral\u201d (nas sinapses ou conex\u00f5es neuronais), ou seja, s\u00e3o selecionadas as conex\u00f5es que d\u00e3o suporte ao comportamento ou \u00e0 habilidade que estamos desenvolvendo. Assim como quando exercito meu corpo obtenho uma s\u00e9rie de benef\u00edcios e altero a regula\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de processos bioqu\u00edmicos, quando exercito meu c\u00e9rebro altero todo o seu funcionamento, seu suprimento de sangue e de energia, bem como a for\u00e7a de suas opera\u00e7\u00f5es. Portanto, n\u00e3o apenas melhoro uma habilidade em si, mas todo o maquin\u00e1rio cerebral. Quando jogo pingue-pongue pela primeira vez, sou muito desajeitado. Ap\u00f3s um ano de pr\u00e1tica intensa, fico muito habilidoso, consigo ver e acertar a bola com alta acur\u00e1cia. Por meio de mudan\u00e7as f\u00edsicas e qu\u00edmicas incrivelmente complexas, criou-se um c\u00e9rebro com esse recurso. Nosso c\u00e9rebro ser\u00e1 diferente daqui a uma semana e muito mais diferente ainda daqui a uma d\u00e9cada. Pode ser uma mudan\u00e7a para frente ou para tr\u00e1s, ganhando ou perdendo habilidades. Depende do uso.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia FAPESP \u2013<\/strong>\u00a0O treinamento de uma habilidade favorece mudan\u00e7as positivas, mas como as mudan\u00e7as negativas s\u00e3o direcionadas?<\/p>\n<p><strong>Merzenich \u2013<\/strong>\u00a0Fazemos coisas ao longo da vida que degradam nossa habilidade de extrair informa\u00e7\u00f5es \u00fateis do mundo a nossa volta. Por exemplo: como um humano moderno, passo v\u00e1rias horas por dia olhando para uma tela na qual coisas importantes para mim acontecem. Tudo que est\u00e1 fora daquela tela \u00e9 desimportante, in\u00fatil, uma distra\u00e7\u00e3o. Estou sistematicamente treinando minha vis\u00e3o, estreitando meu ponto de vista, de modo que somente aquilo que est\u00e1 \u00e0 frente de meu nariz \u00e9 importante. Fazendo isso, vou perdendo progressivamente a habilidade de processar a informa\u00e7\u00e3o visual daquilo que est\u00e1 ao redor. O cidad\u00e3o m\u00e9dio em meu pa\u00eds, e isso foi bastante estudado por l\u00e1, j\u00e1 perdeu em torno de 30% do seu campo visual aos 60 anos e mais de 50% aos 80 anos. As coisas acontecem e ele n\u00e3o v\u00ea porque o c\u00e9rebro rejeita aquele est\u00edmulo. Essa \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais os idosos sofrem mais acidentes de tr\u00e2nsito. Eles gradualmente v\u00e3o regredindo a um campo visual mais estreito e, ao mesmo tempo, quando conseguem enxergar algo, respondem a esse est\u00edmulo de forma mais lenta.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia FAPESP \u2013<\/strong>\u00a0Mas \u00e9 poss\u00edvel treinar uma pessoa de modo a faz\u00ea-la perder uma habilidade j\u00e1 adquirida, como entender a fala em outro idioma?<\/p>\n<p><strong>Merzenich \u2013<\/strong>\u00a0Sim. Posso trein\u00e1-la usando formas modificadas de som n\u00e3o articulado, que n\u00e3o correspondem \u00e0 fala. Treino o c\u00e9rebro a mudar sua capacidade de processamento de sons, de forma que esse perde a capacidade de interpretar os elementos que se modificam rapidamente no fluxo ac\u00fastico formado pela estrutura fon\u00eamica, a estrutura elementar das palavras. Essa interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para extrair o sentido das palavras. Assim como posso refinar essa habilidade, posso destru\u00ed-la. Posso desafiar voc\u00ea a fazer distin\u00e7\u00f5es cada vez mais acuradas do que ouve, detalhadamente, em alta velocidade. Posso trein\u00e1-la a fazer essa distin\u00e7\u00e3o mesmo quando a voz est\u00e1 baixa, ou o discurso est\u00e1 anormal e distorcido. Ou posso fazer o oposto e degradar essa sua habilidade. Dar-lhe um c\u00e9rebro que opera somente quando as coisas ocorrem morosamente.\u00a0Fazer com que n\u00e3o consiga mais interpretar os detalhes do som em determinadas frequ\u00eancias. Fizemos experimentos de treinamento n\u00e3o virtuoso com macacos e ratos e mostramos que isso \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<div class=\"ad article-ad\" style=\"color: #000000;\">\n<div id=\"abrAD_leaderboard5\" class=\"leaderboard-ad\">\n<div><strong>Ag\u00eancia FAPESP \u2013<\/strong>\u00a0Como o envelhecimento influencia as mudan\u00e7as no funcionamento cerebral?<\/div>\n<div><strong>Merzenich \u2013<\/strong>\u00a0O c\u00e9rebro opera de forma muito limitada quando somos crian\u00e7as e, progressivamente, vai aperfei\u00e7oando seu maquin\u00e1rio de modo a operar com cada vez mais precis\u00e3o. Os diferentes sistemas v\u00e3o se tornando mais coordenados em suas a\u00e7\u00f5es e isso vai melhorando at\u00e9 o auge da vida \u2013 que no humano m\u00e9dio ocorre entre o 20\u00ba e o 40\u00ba anivers\u00e1rio. Uma alta performance persiste um pouco mais nas mulheres, mas, quando entram na menopausa, ocorre uma r\u00e1pida deteriora\u00e7\u00e3o em decorr\u00eancia das mudan\u00e7as hormonais e elas alcan\u00e7am o n\u00edvel masculino por volta de 60 ou 65 anos. Portanto, temos esse per\u00edodo da vida, de cerca de duas d\u00e9cadas, em que nosso c\u00e9rebro opera em alta performance e depois deteriora. Se aos 30 anos uma pessoa est\u00e1 operando abaixo da m\u00e9dia da performance da popula\u00e7\u00e3o (no auge de seu funcionamento cerebral, atingiu 100% de sua capacidade), aos 60 anos ela pode estar s\u00f3 com 16% de sua capacidade e, aos 80 ou 85 anos, com 10%. Ora, ningu\u00e9m quer estar aos 85 anos com apenas 10% da capacidade cerebral e o que demonstramos \u00e9 que essa deteriora\u00e7\u00e3o \u00e9 revers\u00edvel. De maneira simplificada, o c\u00e9rebro do idoso \u00e9 mais lento em suas decis\u00f5es e menos fluente em suas opera\u00e7\u00f5es do que na juventude porque lida com as informa\u00e7\u00f5es de forma mais confusa e degradada. Vicissitudes ocorrem ao longo da vida, causam ru\u00eddo no c\u00e9rebro e podem acelerar o decl\u00ednio. Pode ser uma queda de bicicleta e uma pancada na cabe\u00e7a, uma infec\u00e7\u00e3o cerebral ou exposi\u00e7\u00e3o a toxinas. Mas podemos treinar o c\u00e9rebro velho e faz\u00ea-lo recuperar muitas de suas habilidades. Fizemos estudos com diversas popula\u00e7\u00f5es e mostramos que \u00e9 poss\u00edvel reverter esse decl\u00ednio com treinamento.<\/div>\n<div><strong>Ag\u00eancia FAPESP \u2013<\/strong>\u00a0Como funciona o treinamento que o senhor desenvolveu?<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ad article-ad\" style=\"color: #000000;\">\n<div id=\"abrAD_leaderboard6\" class=\"leaderboard-ad\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/9287\/exame\/noticias\/tecnologia_5__container__\"><strong>Merzenich \u2013<\/strong>\u00a0O treinamento aplicado pela BrainHQ busca primeiramente exercitar os mecanismos cerebrais que controlam a neuroplasticidade. Esses mecanismos tamb\u00e9m s\u00e3o pl\u00e1sticos e podem ficar subutilizados com a idade ou em decorr\u00eancia de doen\u00e7as. Mostramos que \u00e9 poss\u00edvel treinar uma pessoa por 15 ou 20 minutos e, assim, regular processos bioqu\u00edmicos nesse maquin\u00e1rio. Como consequ\u00eancia, tudo que ela aprender ou fizer na hora seguinte ser\u00e1 potencializado. Vai aprender mais rapidamente, como se eu tivesse lhe dado uma droga que aumenta o n\u00edvel de atividade cerebral. Mas, ao contr\u00e1rio do que acontece com a droga, se eu aplicar o treinamento todos os dias, durante 15 dias, a mudan\u00e7a \u00e9 duradoura. A performance do maquin\u00e1rio cerebral \u00e9 aprimorada e, quando olhamos um ano depois, o c\u00e9rebro ainda est\u00e1 mais alerta, mais vivo, mais predisposto a mudar. Em segundo lugar, o treinamento busca melhorar a maneira como o c\u00e9rebro processa os detalhes daquilo que vemos, ouvimos e sentimos. \u00c0 medida que o c\u00e9rebro fica ruidoso, vai mudando a forma como ele processa informa\u00e7\u00e3o. Vai perdendo a capacidade de interpretar de forma n\u00edtida os detalhes que se modificam rapidamente. O treinamento visa reverter essa mudan\u00e7a negativa, pois todas as demais opera\u00e7\u00f5es cerebrais dependem disso. O limite da performance de qualquer opera\u00e7\u00e3o mental complexa, como, por exemplo, a mem\u00f3ria, ser\u00e1 determinado pela claridade com que o c\u00e9rebro representa a informa\u00e7\u00e3o. Se estou tentando gravar uma informa\u00e7\u00e3o, quanto mais fielmente ela for representada no c\u00e9rebro, mais facilmente eu consigo lembrar. O c\u00e9rebro \u00e9 uma m\u00e1quina de fazer previs\u00f5es. Ele acumula informa\u00e7\u00f5es ao longo do tempo e, continuamente, faz previs\u00f5es do futuro e associa\u00e7\u00f5es com o passado. Posso melhorar essa capacidade simplesmente aumentando a clareza das opera\u00e7\u00f5es. Para isso, treinamos o c\u00e9rebro a manipular informa\u00e7\u00f5es. Para elevar o n\u00edvel de suas opera\u00e7\u00f5es, posso dar uma tarefa em que o c\u00e9rebro precisa n\u00e3o apenas vir com uma resposta certa, mas com v\u00e1rias possibilidades de resposta em uma alta velocidade e de maneira fluente. Posso treinar o c\u00e9rebro a rapidamente classificar informa\u00e7\u00f5es, a rapidamente mudar as regras de suas opera\u00e7\u00f5es quando as condi\u00e7\u00f5es do meio exigirem isso. Todas essas coisas s\u00e3o v\u00e1lidas de serem praticadas. O que comumente fazemos \u00e9 avaliar em cada indiv\u00edduo onde est\u00e3o as falhas: no controle de aten\u00e7\u00e3o, na habilidade de gravar informa\u00e7\u00e3o, na forma como ele representa informa\u00e7\u00e3o em sequ\u00eancia ou como manipula e organiza cadeias complexas de informa\u00e7\u00e3o. Todas essas coisas s\u00e3o pass\u00edveis de treinamento. O software que usamos lembra alguns jogos para celulares, pois prop\u00f5e tarefas isoladas que devem ser cumpridas em 1 ou 2 minutos e oferece um certo n\u00famero de tentativas. O n\u00edvel de dificuldade vai rapidamente se ajustando na medida em que o indiv\u00edduo vence uma etapa, um n\u00edvel mais dif\u00edcil se abre e o desafia para aumentar essa habilidade a um n\u00edvel maior.<\/div>\n<div><strong>Ag\u00eancia FAPESP \u2013<\/strong>\u00a0O programa de treinamento pode ser usado para tratar doen\u00e7as neuropsiqui\u00e1tricas, como Alzheimer ou esquizofrenia?<\/div>\n<div><strong>Merzenich \u2013<\/strong>\u00a0Temos diversos estudos que mostram que portadores de doen\u00e7as como Alzheimer, esquizofrenia, transtorno bipolar, transtornos de ansiedade ou depress\u00e3o podem ser beneficiados. N\u00e3o estou falando de cura, mas de melhorar a qualidade de vida. Mas, pelas leis do meu pa\u00eds, n\u00e3o podemos lidar diretamente com condi\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas. O treinamento, nesse caso, precisa ser intermediado por um m\u00e9dico ou terapeuta. Tamb\u00e9m temos estudos que mostram benef\u00edcios para pessoas com les\u00e3o cerebral causada por AVC ou por trauma, pessoas expostas a veneno, infec\u00e7\u00f5es cerebrais e estresse. Sempre conseguimos obter uma melhora \u2013 em alguns casos bastante significativa e, em outros, mais limitada por causa da magnitude da les\u00e3o. Em um dos estudos, aplicamos o treinamento em uma popula\u00e7\u00e3o grande de volunt\u00e1rios que tinham sofrido uma concuss\u00e3o. Ap\u00f3s dois meses, o c\u00e9rebro havia voltado ao normal, enquanto o grupo que n\u00e3o passou pelo treinamento ainda apresentava altera\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas um ano ap\u00f3s a les\u00e3o. Tamb\u00e9m j\u00e1 testamos em pessoas sadias que desempenham fun\u00e7\u00f5es em que a tomada de decis\u00e3o pode envolver quest\u00f5es de vida e morte, como policiais e soldados. Estat\u00edsticas indicam que policiais, de maneira geral, fazem m\u00e1s escolhas em 50% dos casos e isso causa grande impacto em uma cidade. Nossos resultados mostram que com o treinamento \u00e9 poss\u00edvel melhorar o processo de tomada de decis\u00e3o. Em uma pesquisa feita em parceria com uma empresa de seguros, treinamos 20 mil motoristas profissionais ou informais, nesse segundo caso, idosos, e reduzimos pela metade o n\u00famero de acidentes de tr\u00e2nsito. J\u00e1 treinamos cerca de 600 mil pessoas ao todo.<\/div>\n<div><strong>Ag\u00eancia FAPESP \u2013<\/strong>\u00a0Assim como acontece com os m\u00fasculos, o c\u00e9rebro perde os benef\u00edcios adquiridos quando o treinamento \u00e9 interrompido?<\/div>\n<div><strong>Merzenich \u2013<\/strong>\u00a0Fizemos quase 30 ensaios cl\u00ednicos para avaliar a dura\u00e7\u00e3o do efeito e vimos que h\u00e1 sempre alguma dura\u00e7\u00e3o significativa, em alguns dom\u00ednios bem mais do que em outros. Se voc\u00ea treina e muda a forma como o c\u00e9rebro trabalha a aten\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 mais duradouro, pois \u00e9 uma habilidade usada em muitas situa\u00e7\u00f5es da vida real. J\u00e1 quando voc\u00ea treina a habilidade de ouvir, a deteriora\u00e7\u00e3o \u00e9 mais r\u00e1pida. Mas, certamente, se voc\u00ea atinge um n\u00edvel de alta performance em alguma habilidade, algum tipo de treino de manuten\u00e7\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1rio para manter o alto n\u00edvel. Em algumas popula\u00e7\u00f5es em que o funcionamento do c\u00e9rebro est\u00e1 mais propenso a se deteriorar, como \u00e9 o caso de pessoas com pr\u00e9-Alzheimer (preju\u00edzo cognitivo leve) ou com doen\u00e7a de Huntington, o decl\u00ednio ocorre mais rapidamente quando o treino \u00e9 interrompido e logo retornam ao n\u00edvel que teriam se nunca tivessem treinado. Enquanto estiverem treinando, por\u00e9m, conseguem se manter relativamente est\u00e1veis, mas n\u00e3o sabemos ao certo por quanto tempo. \u00c9 um grande desafio porque temos que mant\u00ea-los engajados e o treino precisa ser intenso, pois todas as habilidades do c\u00e9rebro est\u00e3o em risco.<\/div>\n<div><strong>Ag\u00eancia FAPESP \u2013\u00a0<\/strong>Como evitar que esse conhecimento seja usado de forma errada?<\/div>\n<div><strong>Merzenich \u2013\u00a0<\/strong>O c\u00e9rebro pode ser treinado a operar de forma destrutiva e h\u00e1 potenciais formas de abuso. Muitos teriam interesse em manipular a plasticidade cerebral para prop\u00f3sitos ego\u00edstas. Ent\u00e3o \u00e9 um desafio para n\u00f3s pensar como isso pode ser controlado e como ter certeza de que esse conhecimento ser\u00e1 usado para o bem-estar humano e n\u00e3o para a destrui\u00e7\u00e3o. Por exemplo, \u00e9 poss\u00edvel tirar de casa um garoto de 10 ou 12 anos, um bom estudante, e transform\u00e1-lo em um assassino, um monstro. O que ocorre nesse caso \u00e9 a plasticidade cerebral direcionada para a destrui\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><strong>Ag\u00eancia FAPESP \u2013\u00a0<\/strong>\u00c9 poss\u00edvel fazer o caminho reverso nesse caso?<\/div>\n<div><strong>Merzenich \u2013<\/strong>\u00a0\u00c9 dif\u00edcil e requer muito treinamento, mas \u00e9 poss\u00edvel e esse \u00e9 um dos meus esfor\u00e7os. Tratar crian\u00e7as com longo hist\u00f3rico de abuso e neglig\u00eancia, condi\u00e7\u00f5es que danificam o maquin\u00e1rio cerebral que controla o aprendizado. Essas crian\u00e7as, ao mesmo tempo em que t\u00eam o maquin\u00e1rio cerebral de aprendizagem prejudicado, t\u00eam acesso a um repert\u00f3rio pobre, que n\u00e3o as prepara para a vida. Claro que acabam malsucedidas. A menos que fa\u00e7amos algo para ajud\u00e1-las do ponto de vista neurol\u00f3gico, n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a para elas. Mas o que a sociedade em geral faz? Culpa-as pelo seu mau desempenho. Culpamos massivamente as crian\u00e7as com inf\u00e2ncias terr\u00edveis por suas experi\u00eancias. Isso \u00e9 est\u00fapido.<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o assunto \u00e9 neuroplasticidade, n\u00e3o h\u00e1 como deixar de mencionar os estudos pioneiros conduzidos por Michael Merzenich (Michael Merzenich), professor em\u00e9rito da University of California, San Francisco (UCSF). 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